quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Velho barro, novo vaso: é a roda da vida.

“[...] ele estava entregue à sua obra sobre as rodas. Como o vaso que o Oleiro fazia se lhe estragou na mão, tornou a fazer dele outro vaso, segundo bem lhe pareceu.” (Reflexão em Jr. 18:1ss.)
 A didática divina em ensinar os homens as verdades eternas é insuperável. Dispõe-se de todos os recursos do ‘mundo’ para dar significação à semântica da vida.
Paulo Freyre em “O menino que lia o mundo” credita à educação o dever de inserir o indivíduo à abstração da vida mediante o seu mundo tangível. De modo que, por exemplo, a matemática tinha o cheiro da manga do quintal da, já, distante infância, das brincadeiras. O giz, uma varinha; a lousa, o chão.A didática divina é de uma capacidade de escrita na lousa do coração humano. Sem linhas, giz, apagador ou livros, ela escreve a história da vida do homem nele próprio.
Jeremias é chamado pra ler/envolver-se nesta didática. Deve aprender sentindo o ‘cheiro das mangas no quintal de Israel’. Deus o chama para ouvir o que lhe tem a dizer através daquilo que deve ver. Trata-se do recurso didático do ouvir vendo e ver ouvindo. Aquilo que já diziam os árabes: "a eloqüência é a arte de ver com os ouvidos". E se isto é a excelência do discurso, Deus sabe como ninguém fazer com que os homens ouçam com os olhos e vejam com os ouvidos.
Por isso, Jeremias desce à casa do oleiro para ouvir o que vê e vê o que ouve. Nesta casa há uma analogia rica em aprendizagens. Israel é o barro (Ato) nas mãos do Oleiro (Deus) que habilmente trabalha com a sua potência de vaso. Que me perdoem os aristotélico ou tomistas, mas o Oleiro dá a forma, potência e ato àquilo que nunca foi.
O velho barro é a essência, origem, estatuto do SER: a sua origem é simples. Como de matéria tão simples se acha tamanha riqueza de ontologia, metafísica? Mas, de ser metafísico, o homem evade o seu princípio constitutivo acreditando ser mais do que criatura objetivando o ontológico e se perde ao descobrir-se o que se é sem Deus: ‘não-ser’. Volta a ser o que há de rudimentar; isto é, simples barro. Aquilo que poderia ser chamado de vaso corrompeu-se voltando à forma que lhe encarnou o velho nome de BARRO. Não mais o barro primitivo do qual se fez Adão. É agora o barro destituído do ser que era enquanto Adão, cuja liga só por milagre da criação é possível de se retornar.
Observemos que o corrompido vaso recebe uma nova forma que, aos olhos do Oleiro, é boa. O Oleiro vê em seu Poder a contínua criação do Bom (Jo.5:17). E isto se deve ao fato de que a Vontade do oleiro é oriunda de sua santidade; isto é, pureza incondicional (Hc.1:12,13).
O mesmo barro na roda (história), do Mesmo Deus que faz tudo sempre novo com o mesmo princípio: Ex-nihilo. O poder de Deus é visto em atuação sobre o barro. Eis aqui o esboço do contraste daquilo que há de mais inferior e Daquele que é mais Sublime: o princípio da criação. O barro é aquilo que é rudimentar, bruto, inconsciente. Em sua natureza e potencialidade encontra-se a condescendência divina: Deus se entrega, está absorto sobre a essência bruta do homem.
Por que Deus se entretece com o que há de mais desprezível (IICor.4:7)? Por que se interessa em Ser aquilo (criador) que se não O fosse não diminuiria em nada o Seu SER? Esta pergunta perpassa as gerações e a resposta continua a mesma: graça! Orígenes respondeu que Deus fez o homem para ser o depositório do seu amor. Dizem que graça é favor imerecido, mas não me parece ser uma resposta satisfatória. Pois, semelhante à fé, a resposta é, tão somente, uma observação de seus efeitos sobre o Vaso. É o vaso que se desfaz nas mão do Oleiro que, podendo ser deixado de lado, continua sobre a roda a trabalhar com o barro.
Neste texto, Deus colocou o homem acima do valor do barro. Esta condescendência divina me alegra e humilha. Deus não perde o interesse sobre o vaso; não o abandona. Ele ‘teima’ e não abre mão deste amontoado orgânico. Absorto pela obra gira a roda. Molda a história, muda os homens e restaura a vida.
Ora, nas mãos do Oleiro Jeremias não vê vaso ou barro. Há sobre a roda, que o artesão pedala, uma massa meio barro, meio vaso. Ambos nada são se não fossem moldados pelo girar da Vontade do Oleiro. Pois, vaso quebrado é tão destituído de valor quanto o barro que não se pode aproveitar. O vaso fora da Roda Divina é barro puro.
O princípio é o mesmo: o barro ganha vida por sua Vontade, mas a vida só ganha sentido se na vontade de Deus. Que se me perdoe o trocadilho, mas na Roda do Oleiro, o barro ganha a estrutura do ser: físsil, e o estatuto de SER- Deus é mais bem visto a cada contorno que o vaso recebe pelo giro desta Roda. A roda gira: o barro é o mesmo. Deus refaz a partir do mesmo o outro, mas nunca de um outro aquele que se perdeu. Aquele que se perderia é sempre o mesmo outro pelo poder criador de Deus. Por isso que Jeremias observa que o vaso que se desmancha nas mãos do Oleiro torna-se outro sempre a partir do “mesmo barro”.
 A Roda da história gira todos os barros. Os vasos se quebram, racham, desmontam, esboroam. Roda a roda e o vaso desliza sob a mão do Oleiro assumindo-lhe a forma desejada. O vaso é outro. A Vontade é a mesma. O Eu é outro. A cada dia a roda me mostra a Graça do Criador.
Ontem, menos do que hoje, tenho a alegria de me ver nas mãos do Oleiro. Hoje, bem mais do que ontem, tenho vergonha de me ver nas mãos do Oleiro tal qual sou. A Roda me humilha e alegra.Talvez seja o que o apóstolo Paulo tenha sentido ao receber de Cristo o consolo da Graça de Cristo. “A minha graça te basta”, disse Cristo ao miserável homem (II Cor. 12:9ss) quando atormentado por um espinho orou-lhe três vezes. Cristo só lhe dá a graça. Esta seria tanto o poder para Paulo na fraqueza quanto o moderador de seu orgulho.
Assim, não me interessa quantas vezes serei reconstruído. É melhor ser um amontoado de barro nas mãos de Deus do que um vaso, pretensamente acabado, longe dela. Nas mãos do Oleiro é o melhor lugar pra teimar ser sempre o mesmo Outro. Estou em processo de formação... Como cantava Cartola: “Preste atenção, querida: o mundo é um moinho...”
                                                                                                                Eliandro cordeiro, barro/vaso.


Um comentário:

Adriano C Lima disse...

E eu, que pensava ser um vaso acabado e útil, vejo em mim rachaduras profundas, que me tornam incapaz de reter a presença de Deus. Por isso, quando me encho de Deus (Ef 5:18), logo me esvazio e então sou cheio novamente e me esvazio novamente. Por esta razão, vivo na roda e nas mãos do oleiro. Graça ou favor imerecido, é ainda estar na roda. Misericórdia é não ser retirado dela.
Abraço,
Adriano